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Programação
Seminário 19 – Caminhos e Descaminhos da Política de Atenção
Primária à Saúde no Brasil
Dia 26 de agosto de 2010 – 16
às 18 horas, Salvador, Bahia – Sala Xangô 2
Comparações internacionais
mostram que uma robusta Atenção Primária à Saúde
(APS), com serviços de primeiro contato resolutivos, integrados à
rede assistencial com oferta ampla de ações e estabelecimento
de vínculo longitudinal, em serviços nacionais de saúde
promove impactos positivos sobre a situação de saúde, produz
ganhos de eficiência e melhora o desempenho do sistema de saúde
como um todo.
Na América Latina, todavia uma abordagem seletiva de atenção
primária tornou-se hegemônica no contexto das estratégias
macroeconômicas de ajustes estruturais dos anos 1980 e 1990, e as agências
multilaterais difundiram a implementação de uma cesta mínima
de serviços para populações de baixa renda, ampliando as
desigualdades em saúde. Recentemente, em contexto democrático,
com a assunção de governos de centro-esquerda, diversos países
na América Latina vêm desenvolvendo políticas que visam
a revitalização e fortalecimento da Atenção Primária
em Saúde como estratégia para organizar o sistema de serviços
de saúde e promover a equidade, tomando em alguns casos como exemplo
a experiência brasileira.
Recentes iniciativas da OPAS e OMS de ‘renovação da APS’
orientam-se em parte segundo as premissas de atenção primária
integral. O Informe da OMS propõe uma resposta integral às necessidades
da população, alargando o espectro de riscos e de doenças
cobertas e propugna a atenção primária como coordenadora
de uma resposta integrada em todos os níveis: não mais um programa
‘pobre para pobres’. Não se trata apenas de reconhecer que
a APS é mais eficiente do que qualquer outra alternativa. O consenso
sobre a necessidade de fortalecer a APS, seja em países centrais ou em
países periféricos, decorre da constatação de que
o modelo hegemônico de atenção à saúde –
fragmentado, baseado na especialização progressiva da prática
médica, desenvolvido para responder aos episódios agudos –
não consegue enfrentar os atuais desafios decorrentes das mudanças
do perfil demográfico e epidemiológico com predomínio de
agravos crônicos. A APS, atualmente, é reconhecida como a resposta
mais adequada aos atuais desafios de morbi-mortalidade. Não se trata
mais de ‘curar’, mas postergar para idades mais avançadas
o surgimento das enfermidades, acompanhar e cuidar. Responder aos agravos crônicos
exige promover a saúde, retardando seu início, acompanhar os portadores
ao longo do tempo, criar vínculos, coordenar o uso dos diversos serviços
de saúde necessários – atributos essenciais de bons serviços
de atenção primária.
No Brasil, desde meados da década de 1990, uma nova abordagem em Atenção
Primária à Saúde vem sendo fortemente induzida pelo governo
federal: o Programa Saúde da Família (PSF). Inicialmente criado
como programa seletivo e focalizado, no processo de implantação
o PSF foi ampliando seu escopo, sendo assumido na Política Nacional de
Atenção Básica em Saúde de 2006 como a estratégia
prioritária para reorientação do modelo assistencial na
atenção básica, passando a incorporar os atributos de uma
APS integral. O modelo assistencial proposto para a Estratégia de Saúde
da Família – tem como núcleo uma equipe multiprofissional
com médico e enfermeiro generalistas e ACS, que deve ser de fácil
acesso/primeiro ponto de atenção, criar vínculos e se responsabilizar
pela atenção à saúde da população
de um determinado território, coordenar cuidados integrais e incentivar
a participação social – tendo deste modo potencialidade
para enfrentar os desafios contemporâneos dos sistemas de saúde.
Indução financeira federal sustentada impulsionou a gradual difusão
da Estratégia SF. Estima-se uma cobertura atual (2010) de cerca de 50%
da população nacional com mais de 30 mil equipes de Saúde
da Família implantadas em território nacional. A Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílio (PNAD) Saúde 2008 corroborou estes resultados:
50,9% da população brasileira, em 2008, viviam em domicílios
cadastrados pelo PSF.
O seminário “Caminhos e descaminhos da política
de atenção primária à saúde no Brasil”
tem por objetivos discutir aspectos cruciais da política de atenção
primária à saúde brasileira e sintetizar o estado da arte
da pesquisa em atenção primária. Pretende-se identificar
lacunas do conhecimento e prospectar os desafios para a pesquisa e para as políticas
de atenção primária à saúde no país
frente às importantes mudanças demográficas e sociais ocorridas
nestes mais de vinte anos de implantação do SUS, com uma população
mais concentrada nas metrópoles, envelhecimento populacional progressivo,
e o surgimento de uma nova classe média, com 90 milhões de brasileiros
que ascenderam na pirâmide social, com novas demandas e valores pouco
definidos. Tudo isto, em um contexto mundial em que mercados se fundem e novas
alianças políticas sul – sul se delineiam com modalidades
de integração regional entre países renovadas também
no campo da saúde.
Pretende-se orientar os debates no seminário pelas seguintes questões:
Como estas mudanças políticas,
demográficas e sociais impactam a atenção primária
e o SUS?
Qual o estado da arte em pesquisa em políticas,
gestão e serviços de saúde em atenção primária
no país? Quais as principais lacunas no conhecimento?
Qual o papel da atenção primária
na efetivação do SUS como sistema universal equitativo?
Quais tensões entre concepções
de atenção primária integral e seletiva permanecem na
implementação da Estratégia Saúde da Família?
Quais os riscos de que a política de atenção primária
brasileira desemboque em um universalismo básico?
Quais os limites e desafios financeiros, de oferta,
organizacionais da rede, de formação de recursos humanos, para
uma efetiva reorientação do modelo assistencial no SUS com base
a uma atenção primária robusta? Há possibilidades
de que a Estratégia Saúde da Família efetivamente reoriente
o modelo assistencial no SUS?
Quais as vantagens e limites da opção
por um modelo territorializado em um país de dimensões continentais
como o Brasil e com densidades demográficas e realidades regionais
tão diversas? Que alternativas no plano da política poderiam
ser estratégicas para superação de alguns dos problemas
hoje existentes para territorialização?
Como a política de atenção
primária em saúde brasileira pode incorporar e responder as
demandas da nova classe média? Como inverter o total afastamento da
classe média dos serviços públicos de saúde? A
Estratégia Saúde da Família pode contribuir para a incorporação
de grupos de classe média e para a valorização do SUS
por esses segmentos da população?
Há dubiedade da política federal
quanto ao modelo assistencial para a atenção básica no
país? Os modelos de saúde da Família e de Pronto Atendimento
competem entre si como serviço de primeiro contato e procura regular?
Como garantir atenção oportuna na SF?
A posição dos serviços da
Estratégia Saúde da Família como porta de entrada preferencial
vem sendo fortalecida. Quais os desafios para sua efetiva integração
à rede assistencial? A equipe de saúde da família tem
capacidades para exercer a coordenação dos cuidados? Quem se
responsabiliza pela continuidade assistencial?
Como potencializar a ação comunitária
e incentivos à participação social das equipes de SF
de modo sustentado? Como construir interfaces e a cooperação
com outros órgãos e setores para enfrentar problemas comunitários
e incidir sobre determinantes sociais e promover a saúde?
A dinâmica do seminário
incluirá apresentações seguidas de debate animado por pesquisadores
convidados. Para subsidiar o debate, prevêem-se apresentações
curtas abordando, por um lado, o estado da arte em pesquisas em políticas
de APS e lacunas de conhecimento e, por outro, alguns dos principais desafios
da política de APS brasileira: sistemas públicos universais e
renovação da APS na América Latina; integração
da ESF à rede assistencial (modelos competitivos, continuidade assistencial,
regulação assistencial); abordagem territorial/espacial e inclusão
de novos segmentos sociais (excluídos, nova classe média, classe
média); formação e gestão de recursos humanos para
a APS.
As apresentações das questões mais gerais da política
de APS brasileira deverão indicar as lacunas de conhecimento, os problemas
cruciais, que devem ser objeto de pesquisas cujos resultados possam contribuir
para desenvolver estratégias para enfrentá-los.
Expositores:
Nila Heredia, Ministra da Saúde da Bolívia, presidente da Alames
(a confirmar)
Helvécio Miranda Magalhães Júnior, Secretário Municipal
de Planejamento, Orçamento e Informação de Belo Horizonte
Aylene Bousquat, Unisantos
Maria Helena Mendonça, Ensp/Fiocruz
Maria Guadalupe Medina, ISC/UFBA
Coordenadora:
Ligia Giovanella, Ensp/Fiocruz